Acto I
Paulo Almeida adorava futebol. Depois da decepcionante prestação da selecção portuguesa no mundial da África do Sul em 2010, Paulo vibrou com a vitoria da Espanha na final. Assim que o jogo acabou ligou para Jorge Lencastre e convenceu-o a meterem-se no carro e irem nessa mesma noite para Madrid.
Paulo Almeida era professor de história numa escola secundaria na região da grande Lisboa, e foi lá que três anos antes conhecera e se tornara amigo do professor de geografia Jorge Lencastre
Às três e meia da manhã chegaram à capital espanhola, foram para uma zona de bares onde se vivia naquela noite um ambiente de festa total. “Parece que Cristo desceu à Terra”, comentou Jorge perante tanta folia. Quando Paulo e Jorge chegaram já a festa ia adiantada. Integraram-se nela e de copo na mão e deixaram-se levar na onda vermelha e amarela que varria a Espanha de norte a sul. Aquela grande vitória, arrancada a ferros, e o álcool, tinham fermentado toda a loucura que se vivia naquelas horas. Todos eram amigos, todos se abraçavam, todos dançavam e cantavam. A celebração era geral, parecia que toda a cidade não tinha ido dormir, com as ruas cheias de gente, aos gritos, a cantar, os carros com as bandeiras desfraldadas, a buzinar, em exaltação, tornando o ambiente em quadro surreal, onde todos pareciam mergulhados num êxtase que fazia esquecer o ontem e o amanha. Naquele momento estávamos no topo do mundo.
Cerca de duas horas depois Jorge apareceu ao pé de Paulo com duas amigas.
Jorge.
- Paulo, apresento-te a Carla e a Teresa. Carla e Teresa, o meu amigo Paulo.
Paulo:
- muito prazer, e parabéns pelo titulo mundial. Viemos para comemorar e ver a chegada da taça.
Carla:
- e a chegada da equipa nacional, não? A taça não vem sozinha.
Paulo
- sim, é verdade, os jogadores são os verdadeiros heróis. Mas a eles já os vimos o ano passado quando fomos a Barcelona celebrar a conquista da liga dos campeões.
Teresa
- a sério?
Paulo
- sim. Somos fãs do futebol do barça e do "tiqui-taca" espanhol. É uma inspiração para qualquer clube do mundo.
Carla
- e eu a pensar que por causa do Ronaldo os portugueses torciam todos pelo Real.
E começou a rir á gargalhada.
Teresa para Paulo
- não fiques com essa cara, ela é mesmo assim, está sempre no gozo. Nós as duas também somos fãs do futebol do barça.
Juntos beberam, dançaram e cantaram com a multidão. Teresa era natural da Catalunha, Carla de Madrid, Paulo era português e Jorge era natural da Galiza. Quando se aperceberam desse acaso do destino Carla voltou a gozar com a situação dizendo:
- só faltava aqui um basco e fazíamos uma confederação de povos ibéricos.
Quando o dia nasceu e o cansaço começou a dar sinais Paulo sugeriu que fossem comer qualquer coisa. Ao que Carla respondeu rindo-se para Paulo:
- sim vamos comer qualquer coisa, a taça só chega logo à tarde.
Carla
- vamos até a um local aprazível com boa vista. Acalmamos o espírito e recuperamos forças para a verdadeira festa logo á noite. Sim, porque esta noite foi só o ensaio geral.
Jorge
- ensaio geral!
E desataram os quatro a rir. Fizeram um ultimo brinde, cantaram um ultimo canto, abraçaram-se uns aos outros e foram rua adiante na direcção do carro.
Acto II
No local aprazível, enquanto esperavam pelo comer. Do nada, num momento de silencio, Teresa disse:
- estive a pensar no que disseste sobre a confederação de povos ibéricos. Na altura em que Portugal se tornou independente eram reinos ou impérios que se conheciam na historia dos povos. Por isso Portugal teve de seguir o seu próprio caminho e mais tarde a Espanha teve de se unificar . Esse conceito de confederação de Estados surge tardiamente na Historia. No momento actual até podia ser uma boa solução para a Península. Isto era se a Espanha desse a independência aos catalães, aos bascos e aos galegos. Podíamos os cinco formar uma Confederação de Estados Federados. Com um governo federal e uma capital Administrativa.
Ficaram três a olhar para ela.
Carla
- pifás-te de vez.
Paulo
- tem cabimento, até podia ser viável.
Carla
- a Espanha nunca dará a independência a ninguém.
Jorge
- a Espanha não, mas os espanhóis quem sabe? Se a via fosse realmente a confederação talvez os espanhóis acabassem por aceitar a ideia.
Carla
- está tudo doido. Está aqui uma espanhola que não aceita essa ideia. A noite e o álcool fizeram-vos mal á cabeça. Eu disse aquilo à pouco como brincadeira, na febre do momento. Não era para ser levado a sério e começarmos a conversar sobre isso.
Paulo
- mas vamos supor, vamos supor que era possível. E a capital seria onde?
Jorge
- é uma boa questão, a capital da confederação ibérica.
Entretanto chegou a refeição pela qual esperavam.
Carla
- vamos mas é comer e deixem-se disso.
Naquele momento a fome foi mais forte, e todos se atiraram ao pequeno almoço.
A meio da refeição Teresa avançou mais uma vez com uma saída do nada.
- a capital podia chamar-se Nova Ibéria. Seria uma nova cidade construída de raiz.
Carla
- é pá, tu cala te com isso.
Jorge
- magnifico! Nova Ibéria. Uma cidade feita de raiz. Projectada para o século XXI, modelo exemplar de cidade verde, auto sustentada em termos de energias e super eficiente no saneamento e tratamento dos resíduos.
Com aquele comentário de Jorge todos olharam uns para os outros, encolheram os ombros e continuaram a comer.
Acto III
Depois a Carla começou a programar o dia
- temos de estar em Barajas cedo para a minha amiga nos deixar entrar pela porta do cavalo. Prometeu-me um sitio onde podemos ver o local onde vai ficar o avião.
Teresa
- mas não vamos dormir para o aeroporto pois não? A selecção só chega daqui a umas horas.
Carla
- pelo menos duas horas antes temos de lá estar.
Jorge
- ainda temos umas horas antes de irmos para o aeroporto.
Carla
- ou então, para matarmos um pouco o tempo, podemos passar no meu apartamento, não fica longe. Quem quiser toma um duche, e eu gostava de descansar um pouco.
Paulo
- por mim pode ser, e aproveito o teu convite para tomar o duche.
Jorge
- vamos então?
Saíram do sitio aprazível e dirigiram-se para casa de Carla. Foi lá que viram com atenção o emocionado beijo que o Casilhas deu à sua namorada quando esta o entrevistava. Foi mais um momento de forte emoção. Desta vez a força do poderoso amor enterneceu as nações e os corações. Eles estavam para chegar, estava a começar um grande dia, que poderia ter passado ao lado daquela geração. Mas não, com o trabalho de muita gente, com muito esforço e dedicação tinham conseguido vencer o Mundial.
Fizeram no apartamento de Carla o que tinham a fazer e depois foram para o aeroporto. Entraram a socapa para o tal local prometido. “…dentro de uma hora e quarenta e cinco minutos a taça pertencerá realmente a solo ibérico.” Enquanto esperavam Jorge foi entretendo os amigos com eloquente monologo que acabou com a frase anterior. Nisto Teresa disparou mais uma vez do nada.
- mas onde iria ficar situada Nova Ibéria?
Carla
- oh meu Deus, tu estás louca com isso!
Jorge
- porque não junto ás margens do grande lago? Algures nas imediações do Lago Alqueva.
Paulo
- só mesmo com saneamento sagrado. Para mim aquelas aguas são virgens de poluição, e deveram continuar virgens para todo o sempre.
Teresa
- tens toda a razão. A natureza que ainda temos pura deve ser conservada pura. Esse é um dos grandes desafios para o qual somos chamados no nosso tempo. Conseguimos ou não defender e cuidar da Natureza? Estamos ou não à altura de ser o seu guardião? Conseguimos realmente proteger o mais fraco?
Jorge
- minha nossa. Bonito, bonito sim senhora, mas, este vinho que trouxemos bem escondido é mesmo bom, mas, continua Teresa.
Carla
- é isso, deixem-na discorrer à vontade, encorajem-na. Que mal fiz eu a Deus?
Paulo
- tenho duvidas em relação à localização junto ao lago Alqueva, tem de se pensar bem nisso.
Jorge
- sim! Nova Ibéria, situada nas margens do Lago Alqueva, é uma visão de esplendor. Uma cidade que leva em conta a disposição dos edifícios, a maneira como foram alinhados, que leva em conta a disposição das vias de comunicação, a organização dos transportes públicos.
Paulo
- não sei se Alqueva é a melhor opção. Tem de se pensar bem nisso.
Jorge
- mas tu ainda estás ai? No lago Alqueva ou não, Nova Ibéria vai ser um dia construída. Como capital da confederação ou não, está cidade será um dia o exemplo de como uma cidade deve ser.
Teresa
- é isso, a cidade do futuro está a nascer. A nossa cidade será o modelo, a partir do qual todas as cidades construídas depois vão beber.
Jorge
- os serviços dispostos ordenadamente, a burocracia reduzida ao mínimo essencial.
Teresa
- as casas dispostas tendo em conta a paisagem e a harmonia da casa com as energias. Envolvida com a natureza, como nas cidades jardim, mas indo além disso, aproveitando os ensinamentos orientais, tanto ao nível do urbanismo como ao nível de harmonização com a paisagem. A cidade do futuro.
Carla
- sim, Santo Agostinho também escreveu A Cidade de Deus, mas dai ás coisas acontecerem como ele queria, …, ainda não aconteceram.
Jorge
- será essa, Nova Ibéria, a Cidade de Deus.
Carla
- oh sim, só me dás mais razão. Estamos aqui a perder tempo com utopias.
Teresa
- mas vale a pena. As utopias dão-nos pontos de referencia, alvos longínquos, ideais para os quais nos tentamos dirigir.
Carla
- mas em ultima instância todos os ideais ficam aquém de serem atingidos, logo provocam sempre insatisfação e insatisfação trás má energia como tu (Teresa) costumas dizer.
Paulo
- calma Carla. Estamos apenas a supor. Entra connosco no jogo do faz de conta, não leves as coisas tão a peito.
Carla
- tão a peito? Tão a peito? Estão a falar em acabar com a Espanha e não devo levar as coisas tão a peito?
Teresa
- lá estás tu a dramatizar. Cuidado que eles não te conhecem e ainda pensam que estás a falar a sério.
Carla desatou a rir e depois disse
- ok, eu entro no vosso jogo. Mas digam-me então, que língua iria ser a língua oficial da confederação. Pois que não podemos fazer como na União europeia, e elegermos as nossas cinco línguas ao mesmo nível, os custos em traduções seriam demasiados. As línguas são um problemas que a União europeia tem e que os estados Unidos não tem.
Jorge
- elegemos o latim actual como língua oficial. A língua oficial, de base, seria a língua mais falada no mundo neste momento, neste caso o inglês.
Teresa
- mas cada Estado teria de ter também a sua língua de origem ensinada nas escolas ao mesmo tempo que a língua de base.
Carla
- bem, talvez, mas nesse caso teria de haver um esforço imenso no inglês, pois este seria a língua mais forte da confederação.
Paulo
- a Confederação Ibérica vai procurar colocar-se na linha da frente das relações comerciais com as economias emergentes. O papel das línguas é fundamental. O português e o castelhano tem de estar numa segunda linha. São línguas de dialogo internacional. Não faz sentido a Confederação ir dialogar com o Brasil ou com a Argentina em Inglês. Por isso não concordo com apenas o inglês como única língua oficial. O basco e o catalão não são línguas de dialogo internacional. Pelo contrario o português e o castelhano são veículos primordiais no relacionamento com os países que falam essas línguas. Por isso tem também de ser línguas oficiais.
Jorge
- então está assente. Será assim. Três línguas oficiais, duas línguas de dialogo internacional e a língua mãe.
Carla
- serão ensinadas nas escolas três línguas de base. O inglês, a língua de origem e o português ou o castelhano.
Teresa
- as relações com os países da união europeia não podem ser descuradas. E ali dialogamos em inglês, assim como com os Estados Unidos e com o resto do mundo que não fala castelhano ou português. Somos cinco Estados dentro de uma Confederação, que faz parte de uma grande confederação europeia com alguns pontos de interrogação e ainda não num processo de consolidação.
Jorge
- se nos atirarmos ao trabalho ainda consolidamos a confederação ibérica primeiro que a europeia.
Teresa
- o que estou a falar é que o foco de relações comerciais e culturais com a Europa também é fundamental.
Jorge
- nós vamo-nos tornar os lideres da Europa, e lideres da economia mundial.
Carla
- sim, no elam que se cria, com a Europa a render bem mais perto do seu valor potencial. Ninguém se chega a frente para fazer a verdadeira reforma financeira. O modelo anterior faliu. Depois da crise financeira de 2008 o capitalismo como o conhecíamos morreu. Como o comunismo como o conhecíamos também já tinha morrido, o capitalismo mostrou também que como modelo económico a longo prazo para servir de guia à espécie humana, não serve. Falhou. Crises como a de 29 e a de 2008 tendem a aparecer vezes demais e repetidamente, não são anomalias, fazem parte do sistema, da maneira de ser da coisa. E sendo assim, aquele modelo económico não pode servir para vivermos como seres humanos do século XXI. Com o que já sabemos das coisas, com o que já sabemos pensar sobre elas, com e o grau de maturidade que alcançamos no presente, já não conseguimos coexistir pacificamente com um regime económico que promove o sofrimento agonizante de milhões de seres humanos de tempos a tempos. A reforma tem de ser profunda. E que altura melhor que num momento de transição, depois de uma crise que abalou as fundações do mundo tal como o conhecíamos.
Jorge
- exactamente! Avançamos com uma nova ordem financeira mundial. A nova ordem do Projecto Care, como está descrita em Paradoxo Essencial, vocês leram esse texto?
Teresa
- sim. Soberania política e soberania económica do cidadão. O ultimo grito na reforma das mentalidades. Avançamos para uma estrutura social que assenta na dignidade humana e no definitivo suprimir das castas económicas. Deixa de vez de existir a distinção entre patrícios e plebeus.
Jorge
- é isso, o regime dos príncipes tem de acabar.
Carla
- valha me Deus essas palavras. Deixa lá estar a monarquia em Espanha que está muito bem, tão lindas as nossas princesinhas.
Jorge
- não é nada disso. Estava a falar em termos sociais, não em títulos oficiais.
Teresa
- eu percebo o que quiseste dizer. Na vida, uns acham que devem ter melhor tratamento que os outros. Uns que se acham especiais e com direito a mais e melhores oportunidades. Que acham que tem mais direitos e devem ser melhor recompensados. E tudo isso, não pelo seu esforço e dedicação a algo positivo, que é como deve ser, mas sim pelo facto de um privilegio hereditário, ou foram eles ou os pais deles que lhes meteram aquilo na cabeça. É esse o regime de principies e outros que tem de acabar. Somos todos seres humanos e o mínimo exigido tem de ser a dignidade.
Paulo
- continuamos com o euro como moeda e que mais?
Jorge
- e lançamos o grande projecto energético ibérico de energias renováveis. Com o sol que temos, o vento, o mar. seremos o maior produtor e exportador de energia em termos globais.
Carla
- e com o desporto, podemos ganhar muito mais. As selecções nacionais deixam de ser vestidas por multinacionais estrangeiras. Quem vai vender as camisolas e artigos de aficcion serão as firmas ibéricas. As camisolas do Ronaldo, do Messi como jogador do Barça, do Xavi, do Iniesta, grande Iniesta, serão produzidas e vendidas pela industria Ibérica.
Jorge
- como os artigos do Alberto Contador, do Fernando Alonso, e do Rafael Nadal, …, fazemos uma revolução e nacionalizamos o desporto da Península.
Carla
- bem. Eu não iria tão longe.
Paulo
- eh eh, agora era ele que estava no gozo contigo...
Teresa
- ah, viste Carla? Andas sempre no gozo e agora foi ele que brincou sem tu dares por nada
Carla
- hoje não faz mal, a Espanha ganhou o Mundial. Hoje perdoou-te mi galante galego
Jorge
- si, si, minha castelhana caliente de sangue na guelra.
Teresa
- estou a ver que vocês estão bem um para o outro,
Paulo
- sim, pelo menos em termos de bebedeira vão mais ao menos no mesmo nível.
Carla
- está quase na hora de chegarem os heróis, e a taça, eh eh.
Teresa
- faremos grandes investimentos na investigação cientifica, grandes cooperações entre universidades e industrias.
Paulo
- grandes investimentos em projectos de crescimento sustentado. Desenvolvimento cientifico prático, para ser comercializado.
Jorge
- reformar para um nível de cinco estrelas os serviços do Estado. O Estado não pode ser só eficiente. Tem de ser super eficiente. A educação, a saúde, a Justiça, a administração central.
Carla
- a qualidade das instituições visa a qualidade das pessoas em geral. Tem de deixar de haver pobres, quer de espírito quer materialmente. Tem de deixar de haver desempregados. Deveríamos introduzir o sistema de salários Norueguês, todas as profissões receberem mais ao menos o mesmo.
Jorge
- o um ordenado mínimo Ibérico e Europeu.
Teresa
- e o sistema de educação Dinamarquês, onde em vez de se encher as pessoas com informação, se ensina as pessoas onde está a informação, a avaliar informação e a relacionar informação.
Carla
- e uma semana de trabalho de 4 dias como no Estado americano do Utah.
Jorge
- um projecto social de dignidade do cidadão, coordenado com o projecto ambiental que esteja de acordo com as exigências ecológicas do nosso tempo.
Teresa
- hoje podemos sonhar tudo. Nova Ibéria.
Paulo
- e criar e desenvolver projectos de cooperação estratégica entre as nossas novas energias e a industria automóvel europeia. Para que seja dado definitivamente o salto, e os carros larguem de vez o motor de combustão. Com a construção de Nova Ibéria reavivamos a industria de construção.
Teresa
- mas não podemos fazer os mesmos erros do passado. Muitas lições foram aprendidas com a construção desmesurada e a importação de trabalhadores de baixo salário. Queremos desenvolver projectos de trabalho que dêem emprego aos que cá estão, para acabar com desemprego.
Jorge
- o turismo continuará a ser uma fonte económica importante, que apraz continuar a apurar a sua qualidade.
Teresa
- A prosperidade geral, se não for construída á custa da exploração dos mais fracos, é uma coisas boa. É a prosperidade que queremos, é por ela que vamos trabalhar,…
Carla
- vêem ai, olha, olha a agitação na pista.
“E chegou o avião a Barajas, com as cores da bandeira no seu dorso, já com registo do titulo estampado em si, as bandeiras desfraldadas na cabina do piloto. Foi uma emoção tremenda, ver o Casilhas sair do avião com a taça na mão, ao lado do Vicente del Bosque.
Que emoção, vê-la nas mãos dos nossos, a ser trazida como pertencendo ao nosso solo. Durante a tarde, depois das cerimonias oficiais, o autocarro desfilou. As janelas dos prédios cheias de bandeiras, cheias de pessoas. A multidão cercava as ruas, entoava cânticos que ecoavam no profundo do nosso ser. A vertigem era grande, o sentimento grandioso. A certas alturas estremeci por dentro. Emocionei-me e chorei quando vi as imagens e as palavras da entrevista do Casilhas com a sua namorada. “agradeço aos meus pais, aos meus (amigos?), … e a ti, foi o que ele deve ter pensado naquele momento, e a alegria foi tão grande que ele teve de a compartilhar. Ri, chorei de alegria e de felicidade. A multidão cercou as ruas de Madrid, com a sua alma imensa, aberta em comunhão, de braços levantados, gritamos em uníssono.
O sentimento foi sublime e profundo. A empatia foi real. Sentíamos que estávamos a viver um momento único. A primeira vez. Não há amor como o primeiro, não há nada como o desabrochar de algo novo. Tínhamos conquistado o Céu e Terra, e os heróis estavam ali connosco, eram como nós, fazendo de cada um de nós herói também nesse inesquecível dia. Cada um de nós ia naquele autocarro vivendo o sonho de tantas gerações. É nossa, é nossa. Os gritos, os cânticos, o barulho nas ruas era ensurdecedor, penetrava no nosso intimo, intimo que compartilhávamos naquele momento. A Alma foi una por um dia. Somos campeões do mundo, e naquele momento, todas as aspirações e realizações do ser humano se resumiam naquela imensa alegria partilhada.”
Foram estas palavras que Teresa escreveu depois no seu diário. Quanto à utopia, ficou para sempre a brilhar no profundo da alma e do espírito.
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